Erros de Pizzaria
POR Julio Cesar Michelucci Tanga Doutor em Linguística e docente de Língua Portuguesa do Maxi e da UEL
Você gosta de pizzaria? Olha, vou ser sincero: a pizzaria é um dos lugares em que me sinto mais feliz! Sento-me à mesa, peço uma boa pizza com borda recheada e, se aguentar, como uma doce, de preferência de chocolate. Aliás, quem inventou a borda recheada, hem? Não consigo entender: o ser humano insiste em distribuir prêmios a grandes literatos (como Paulo Coelho e Sarney), pessoas que teriam colaborado em processos de paz ou que descobriram a cura de alguma doença. Mas e o inventor da borda recheada? Esse cara mudou a minha vida! Lembro-me muito bem de como eu sofria quando, aos dez anos, tolhido pela limitação de meus pais - "Três pedaços? Imagina, isso é exagero!" -, cortava as míseras duas fatias a que eu tinha direito em diminutos pedaços. Criava estratagemas para que eles durassem mais, como a mastigação bovina. Quando a borda chegava, comia-a como se fosse a melhor parte da saborosa refeição. Ignorava que não tivesse recheio algum e devorava-a - devagar, para sustentar mais - com todo o prazer. Ai, como eu queria que naquele tempo alguém tivesse a ideia de meter um queijo lá dentro... Hoje sei que sou um homem, visto que posso comer quatro pedaços e, se quiser, todos eles podem ter a borda recheada. Pois é. Evoluímos. Agora tenho que escrever um pouco sobre a língua portuguesa. E o assunto tem a ver com as pizzarias. Quero lançar um desafio ao leitor: quem encontrar pelos menos dois desses restaurantes em Londrina que não ostentem as inadequações gramaticais que exporei nas linhas subsequentes ganhará uma pizza. Combinado? Vamos lá: a primeira falha se refere àquele sabor que sempre está na promoção: a calabresa. Por que a maioria esmagadora das pizzarias escrevem "calabreza" em suas faixas de divulgação e nos cardápios? Meu Deus, dia desses cheguei a pensar que eu estivesse errado e que os empresários da comida italiana estivessem certos. É tanta "calabreza" por aí que dá até medo de pedi-la e ter uma baita indigestão. Se francesa, japonesa e holandesa são escritas com s, por que calabresa vai ter o bendito z? Não tem cabimento! Perceba que, quando indicar lugar de origem, a terminação esa vai ser sempre grafada com s. E calabresa é justamente a linguiça (hoje sem trema, coitada) proveniente da Calábria (Itália). O outro problema também está na promoção. Não existe, aos olhos da Gramática normativa, a pizza de "mussarela". É verdade! Quem encontrar essa palavra num dicionário bom ganha um prêmio. Em verdade, amiga(o) que me lê, esse tipo de queijo se chama muçarela. Argh! parece nojento, não? Mas é exatamente assim que se escreve. Ou muçarela, ou mozarela. Certa vez, quando eu ainda era assessor gramatical da Folha de Londrina, esse caso engendrou uma polêmica danada. A então editora-chefe e eu não sabíamos o que era melhor: o certo bizarro ou o errado comum. Nem sei se chegamos a um consenso... Além da calabresa e da muçarela (nem me referirei ao acento que se costuma pôr em tomate "sêco", bizarria incompreensível), há que se falar de outra inadequação gramatical das pizzarias. Quem disse que o plural de pizza é pizzas? Perante os bebedores de chá da Academia Brasileira de Letras, isso é um crime linguístico. A palavra pizza, como se pode facilmente notar, não teve a grafia aportuguesada, o que se pode perceber pelo grupo zz, que não existe em palavra alguma de nosso idioma. Como é escrita da maneira original - em italiano -, deveríamos, pelo menos conforme a Gramática ensina, conservar a regra de plural do idioma de origem: a pizza, as pizze. Outras palavras que mantêm a escrita nativa obedecem à mesma regra: o campus (latim), os campi; a Biltz (alemão), as Blitze - com maiúscula, não sei por quê; o walkman (inglês), os walkmen; etc. É! Imagine só: "Moça, mande-me duas pizze! Uma de calabresa com s e outra de muçarela com cê cedilhado". Nossa, acho que eu não teria coragem de comê-las...
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